terça-feira, 27 de maio de 2008

Construir ou destruir?



Desde que Adão coseu folhas de figueira para cobrir a sua nudez (Gn 3:7), os homens não pararam mais de construir coisas. Sim, imediatamente após se abrirem os olhos do primeiro casal, eles se viram desprotegidos, ameaçados carentes de cobertura. Começando com frágeis folhas de figueiras; passando por madeira de acácia que formou uma enorme arca, para salvar uma família e casais de cada espécie animal; prosseguindo com tijolos bem cozidos e calafetados com betume, para resistir a inundações e atingir o céu, de forma que pudessem permanecer juntos e engrandecer seu nome; evoluíram a ponto de construir templos de pedra, bronze, prata, ouro e peles de animais; e atualmente empregamos concreto, aço e vidro para arranhar os céus.
Interessante notar que tudo começou com o desejo de ser como Deus (Gn 3:5-6). O homem estava em um ambiente perfeito, no seu habitat natural, não tinha nenhum tipo de necessidade, e não carecia de qualquer espécie de cobertura para lhe dar proteção, não havia elementos hostis, o clima era perfeito, sem agentes nocivos a sua saúde, sem acidentes naturais que pudessem ameaçá-lo, desfrutava da presença constante de seu Criador, que o visitava todas as tardes para lhe fazer companhia e ensiná-lo tudo o que ele precisasse saber. Mas, o homem foi seduzido pela promessa da serpente, de que poderia ser como Deus, conhecedor do bem e do mal, e tentado permitiu que nascesse nele a cobiça e movido pela cobiça de transpor o humano, o natural e atingir a divindade, ele pecou.
Imediatamente após pecar, recebeu a capacidade de saber o bem e o mal. Contudo, o homem não havia sido criado para conhecer estas coisas, foi planejado para ser inocente, não havia na natureza humana a capacidade de conhecer o bem e o mal sem ser por eles afetado, o homem foi instantaneamente permeado pela ambígua natureza do fruto daquela árvore, conheceu o bem sem a capacidade de efetuá-lo e descobriu o mal sem o poder de evitá-lo. Desta forma, seus olhos foram abertos para o fato de que ele havia cometido uma transgressão, e percebeu que a morte habitava em seu corpo, cheio de vergonha ele constrói pela primeira vez um artefato que pudesse esconder sua incapacidade, e protege-lo, pelo menos assim ele pensava, ainda não fazia idéia de o quanto a sua decisão afetaria o seu ambiente, e do quanto aquela sua solução, para cobrir e proteger seu corpo, era ineficaz.
Desde então o homem busca construir fortalezas cada vez maiores e mais fortes para afasta-lo da terra que o lembra de sua maldição, e se aproximar do paraíso que foi sua morada original. Mas assim como as folhas de figueira que formaram suas primeiras vestes eram impróprias, toda construção humana se reveste da mesma incapacidade de cobrir seu pecado e sua morte. Ao ver a infantil veste feita pelo homem para cobrir sua vergonha, Deus provê para ele uma cobertura adequada, roupas de pele, eu poderia fazer aqui um longo discurso sobre como este ato de Deus serve como um tipo para o sacrifício de Cristo que cobriria definitivamente a nossa vergonha, mas creio que seja desnecessário falar sobre o óbvio. Quero enfatizar o fato de que nenhum esforço humano, seja ele coser folhas de figueira, ou construir templos para milhares de fiéis, seja construir um padrão de comportamento exemplar, que o afaste de tudo aquilo que ele considera pecaminoso, ou aceitar uma doutrina teológica. Todos estes, e tudo mais, são esforços inúteis de uma raça caída, são tentativas vãs de se redimir por seus próprio méritos.
O verbo no hebraico para conhecer é Iala´át, que possui uma conotação emocional, ou seja, conhecer não é apenas um fenômeno mental, conhecer neste caso é envolver-se emocionalmente com algo, quando é dito que Adão conheceu Eva, no capítulo 4 e verso 1, o verbo indica um envolvimento emocional, da mesma forma, que conhecer o bem e o mal é envolver-se com eles. Mais que apenas ter ciência do que é o bem e o mal, conhecer é ter desejo por ambos. Por isso, Jesus disse que se no coração desejamos algo proibido já cometemos pecado, porque o que se deseja é algo que está impregnado em nós.
Mas quando o homem conheceu o bem e o mal ele se tornou capaz não só de construir, mas também de destruir, e por incrível que pareça, é destruindo que o homem pode ser restaurado, porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a sabedoria o entendimento dos entendidos. (1 Co 1:19). Parece loucura mas: a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. (1 Co 1:18). É destruindo suas tentativas de se auto-justificar, destruindo todo conhecimento humano, todo esforço de se redimir, de se desculpar, de se proteger, que o homem pode finalmente confiar apenas no amor de Deus, amor que foi revelado em Cristo: Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por meio dele vivamos. (1 Jo 4:9).
Destruir nossos castelos, nossas torres, nossos templos (Jo 2:19), nossas religiões, e confiar apenas na provisão de Deus é algo muito difícil para uma raça acostumada a se esforçar para reaver sua posição original. Uma raça que foi contaminada com o desejo de querer ser como Deus. Mesmo entre aqueles que crêem em Cristo, muitos são os que não se contentam com o sacrifício do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, estão sempre se esforçando para alcançar a benção, sempre pagando um preço pela unção. Precisam cumprir uma série de normas comportamentais e uma infinidade de pequenos rituais que saciem a sua sede de justiça própria. Contudo, se quisermos seguir a natureza adâmica que clama por construir coberturas para si mesmo, e se esconder atrás de árvores do jardim, ao invés de nos apresentarmos nus diante daquele que pode nos redimir, seremos sempre uma raça caída. Mas se mortificarmos as obras da carne, não assumindo um ascetismo religioso, mas destruindo toda obra carnal que vise alcançar a salvação ou pagar a graça de Deus, e nos firmarmos em nossa nova natureza gerada em Cristo Jesus, uma natureza que confia unicamente em Deus, seremos libertos do pecado, não por nossos esforços, mas pela obra consumada na cruz do Calvário. Não por nossa capacidade de construir, mas pela nossa capacidade de destruir nosso abrigos e coberturas e nos abrigarmos sob o sangue do Cordeiro, que foi morto antes da fundação do mundo, para que por ele vivêssemos, se assim o fizermos e se com a a boca confessarmos a Jesus como Senhor, e em nosso coração crermos que Deus o ressuscitou dentre os mortos, seremos salvos. Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. (Rm 8:1).

Jerry

2 comentários:

Worlen Kaizer disse...

É dificil abrir mão do nosso orgulho, aceitar que a torre que construímos pra nos levar a Deus, só nos trouxe confusão. Cada um fala uma lingua diferente, pensando que a sua lingua é a de Deus.
Infelizmente tem sido difícil para muitos aceitar o sacrificio de Jesus, que aquela rude cruz foi o bastande para nos justificar, pois se ela é poderasa pra justificar toda humanidade, as pessoas não serão mais dependentes de nós, assim a cruz não será tão útil para nossos interesses.
Queremos chegar a Deus com nossos próprios esforços, temos da graça, pois ela parece muito fácil, mas na verdade a graça tem se revelado um caminho muito estreito, pois para recebe-la ,precisamos abrir mão do nosso eu, do nosso orgulho e deixar que Ele faça tudo por nós.

silvania disse...

Paz, amado...
Acredito que somente os que vivem na graça, os que aceitam a eleição da graça, os que não eram salvos de Deus e agora são, os que eram perdidos e foram achados, os que eram condenados e foram escolhidos para a salvação, passam a entender essa “Maravilhosa Graça”.Esse trecho é que a mim mais chamou atenção:"Destruir nossos castelos, nossas torres, nossos templos (Jo 2:19), nossas religiões, e confiar apenas na provisão de Deus é algo muito difícil para uma raça acostumada a se esforçar para reaver sua posição original."
É fica aqui registrado... “Mas se é por graça, já não é pelas obras: de outra maneira, a graça já não é graça“. (Romanos 11:6)
O que espero da graça de Deus...? Eu não espero, eu já recebi dela. E sem nenhum merecimento.
Um grande abraço, até a próxima..rs.